ATENO:

ESTE LIVRO FOI DIGITALIZADO PARA USO EXCLUSIVO DE PESSOAS COM DEFICINCIA VISUAL GRAVE. ISTO PORQUE ESTES CIDADOS TM DIFICULDADE DE ACESSO A LEITURA QUE VO MUITO 
ALM DA FALTA DE CONDIES FINANCEIRAS NA OBTENO DE LIVROS. AMIGO DV, POR FAVOR, SEJA CONSCIENTE E RESPEITE. NO REPASSE ESTA OBRA A PESSOAS QUE NO SO PORTADORAS 
DE DEFICINCIA VISUAL, SOB PENA DE FERIR OS DIREITOS AUTORAIS E PREJUDICAR ASSIM A NS MESMOS NO FUTURO. QUEM DIGITALIZA LIVROS SABE O QUANTO  DIFCIL ESTE TRABALHO 
E A SUA CORREO POSTERIOR. NUM MOMENTO EM QUE ESTAMOS TENTANDO COM AS EDITORAS QUE ESTES VENHAM DIGITALIZADOS E CORRIGIDOS PARA NS, NO SERIA UMA BOA QUE ESTAS 
OBRAS FICASSEM POR A PARA QUALQUER UM TER ACESSO. SUA CABEA  O SEU GUIA!


CAPTULO 35 
NOES DE VERSIFICAO 
1 
  
s 
VERSO TRADICIONAL 
1) Uma linha potica, com nmero determinado de slabas apuradas sob condies especiais - e com pausas tambm obrigatoriamente fixas, chama-se verso. 
A poucos preceitos se reduz a contagem das slabas no verso: 
a) Quando a ltima slaba de uma palavra terminar em vogal e a primeira da palavra seguinte comear por vogal, (desde que no sejam 
tnicas ambas), d-se a juno delas numa slaba s. 
b) Os hiatos podem transformar-se em ditongos, e os ditongos (menos freqentemente) em hiatos. 
Slabas mttricas chama-se a esses grupos silbicos do verso, diferentes dos que o critrio estritamente gramatical reconhece na prosa. 
Contagem das slabas gramaticais: 
Le ve , na bo ca a flan te , es vo a a um so rri so 
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 
(OLAVO BILAc) 
Contagem das slabas mtricas: 
Le ve , na bo ca a flan te,_es voa a -lhe_um so rri (so) 
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 
CRASE, SINALEFA, ELISO 
Na quinta slaba, houve um encontro de vogais tonas, e, por isso, 
as duas slabas ca (de bo-ca) e a (de a-flan-te) fundiram-se numa s: 
522 
ca. O mesmo aconteceu na stima: o e da slaba te (a-flan-te) embebeu-se no e da seguinte es (es-vo-a-a), resultando da uma s slaba mtrica: tes. Como o encontro 
se fez entre vogais iguais, diz-se que houve crase. Se elas fossem diferentes, ou uma seria absorvida - desaparecendo conseqentemente - ou se formaria um ditongo 
crescente, ou ainda um tritongo. 
E re vi ver dein ten si da dea dor 
1234 5 678 9 10 
Na quinta slaba de + iii l-se diii, por fuso das duas vogais. J 
o encontro de + a, do nono p, vai gerar o ditongo ii (y), com ambos 
os elementos nitidamente pronunciados. No primeiro caso, tem-se ainda 
a crase; no segundo, a sinalefa. 
Que eu ou o_ao lon ge o o r cu lo de E lu (sis) 
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 
(RAUL DE LE0NI) 
Na primeira slaba formou-se o tritongo iu; na terceira, outro tritongo: u'tu, ambos por sinalefa. O quinto p  mais complexo: por eliscio, apagou-se o e (de lon-ge), 
e por sinalefa, nasceu o ditongo u. Ainda esta ltima figura originou o nono p: di (y, ditongo): 
HIATO, DITONGO, DIRESE, SINRESE 
Em geral, tm muitos poetas (sem razo, alis) procurado evitar o hiato, quer intraverbal, quer interverbal. 
a) Denomina-se direse a transformao de um ditongo em hiato. S por exceo se tm valido os poetas deste recurso, explorando-o 
intencionalmente. F-lo, entre outros, o nosso admirvel Raimundo 
Correia, com rara felicidade, no verso: 
"Na to a lha fri  ssi ma dos Ia (gos)..." 
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 
/ 
Exemplos: 
(HERMES FONTES) 
523 
A palavra toalha, que na prosa pode ter duas ou trs slabas, , no entanto, normalmente dissilbica no verso, e como tal devem separar- se-lhe as slabas mtricas 
(toa-lha). Mas, a, contou-se como trissilbica (to-a-lha). Alm disso, belo o efeito conseguido com o hiato iii (de fri--ssi-ma). 
b) Chama-se sinrese a transformao de um hiato em ditongo. 
A palavra ru(na, por exemplo, pronuncia-se, na prosa corrente, com trs slabas (ru-(-na). Em poesia, porm, no  raro figurar como disslabo (ru(-na), e, pois, 
com ditongo - como neste verso de Hermes 
Fontes: 
"Fa ri1a1 tu1 doem1 ru1nas, aos seusl ps..." 
2) Contam-se os versos somente at a ltima slaba tnica: da, trs espcies: 
a) Agudos, os terminados em palavra oxftona; 
b) Graves, os terminados em palavra paroxtona; 
e) Esdrxulos, os terminados em palavra proparoxtona. 
Exemplos: 
"Faria tudo em runas, aos seus ps..." (HERMES FONTES) 
"Quem foi que viu a minha Dor choran(do)?" 
(AUGUSTO DOS ANJOS) 
"A noiva cheira a sn(dalo)..." (GUIMARES PAssos) 
NMERO DE SLABAS, ACENTUAO 
Em portugus, compem-se versos de duas at doze slabas. S por mero capricho e fantasia constroem alguns poetas composies inteiramente em versos de uma slaba. 
Alis, tambm os de duas, de trs e mesmo os de quatro raramente figuram em poesias completas; o mais comum  inserirem-se em poemas polimtricos, entre outros de 
vrias medidas, em ordem crescente ou decrescente, ou sem ordem sistemtica. 
524 
VERSO DE UMA SLABA 
Exemplos (em estrofes completas e como fragmento): 
"Vagas, 
pia gas, 
fragas, 
soltam 
cantos: 
cobrem 
montes, 
fontes, 
tibios 
mantos." 
(FAGUNDES VARELA) 
"...triunfarejs todos, em bando, 
voan(clo) 
na Apoteose das Asas!" (HERMES FONTES) 
VERSO DE DUAS SLABAS 
2 
"Tu, ontem, 
2 
na dana 
2 
que cansa 
2 
voavas, 
525 

2 
com as faces 
em rosas 
2 
formosas, 
2 
de vivo 
2 
carmim..." (CASIMIRO DE ABREU) 
"A voz expira 
2 
dolen(te), 
mansa, 
como a agonia 
de uma criana..." (GIUCA MACHADO) 
VERSO DE TRS SLABAS 
3 
"Vem a aurora 
3 
pressurosa, 
3 
cor de rosa, 
3 
que se cora 
3 
de carmim; 
3 
a seus raios 
3 
as estrelas 
3 
que eram belas 
3 
tm desmaios 
3 
j por fim (GONALVES DIAS) 
526 
"Tudo passa, neste mundo, 
3 
vento e vaga, 
dura apenas um segundo, 
3 
e se apaga." (MARTINS FONTES) 
VERSO DE QUATRO SLABAS 4 
"O inverno brada 
4 
forando as portas... 
4 
Oh! que revoada 
4 
de folhas mortas 
4 
o vento espalha 
4 
por sobre o cho..." 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
"A iara chora na corrente, 
penteando as tranas de ouro fino 
4 
e olhando o cu." (ALBERTO DE OLIVEIRA) 
VERSO DE CINCO SLABAS 
J os versos de cinco slabas so freqentes em peas integrais; o 
mesmo acontece com os de seis; e os de sete em diante -, estes so 
os comuns. 
Para alguns versos h denominaes especiais: 
5 slabas - redondilha menor; 
7 slabas - redondilha maior; 
10 sflabas - herico, ou sfico (conforme o ritmo); 
12 slabas - alexandrino. 
At sete slabas no h pausas rftmicas obrigatrias: o acento tnico 
pode cair em qualquer das slabas. 
527 
nas selvas cresci; 
2 
5 
guerreiros, descendo 
"Pequenino, acorda!" (3) 
(VICENTE DE CARVALHO) 
Posto que normalmente se usem os ritmos dos exemplos dados, iste 
, com acentuao na 2 ou na 3 sflaha, no ser difcil encontrai 
outras modalidades: 
1 5 
"Prola da altura, (1) 
santa lua pura (s na 5) 
1 5 
l(vida a boiar." (1) 
(AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT) 
"Palpitando o seio, (3a 
salpicando prolas J 
5 
no desalinhado 
do gentil bailado, 
cada corpo airado, 
de irisadas veias, 
 um jardim-fechado 
no festim sagrado 
das sereias..." 
Exemplos: 
Verso de cinco sflabas ou redondilha menor: 
"Meu canto de morte, 
guerreiros, ouvi: 
2 5 
sou filho das selvas, 
2 5 
(2 ) 
(GONALVES DIAS) 
2 5 
da tribo tupi." 
3 5 
5 
(s na 5') (3 ) 
(HERMES FONTES) 
528 
VERSO DE SEIS SLABAS 
Admite vrios metros; pode ser acentuado na 2 na 3 na 4'; 
s na 6a: 
4 6 
"E o cavaleiro passa (4') 
4 6 
ante a sombria porta (4) 
2 6 
da lgubre Desgraa, (2) 
Silenciosa mulher de olhar de morta. 
3 6 
- Viste, velha agoureira, (3) 
1 6 
O anjo do meu solar? (1) 
6 
- Ah! com uma Feiticeira (s na 6) 
2 6 
acaba de passar..." (2 ) 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
 importante notar que "nem todos os acentos tnicos geram pausas".* Assim, no 2? verso da segunda estrofe, o meu  muito fraco; 
no verso seguinte, s h uma pausa na sflaba final. 
VERSO DE SETE SLABAS 
Neste tipo de verso, tambm chamado redondillha maior, no h fixidade das pausas:** o acento tnico pode cair em qualquer sflaba. Nesta poesia, por exemplo, predomina 
a acentuao na 4a slaba, o que , alis, o mais comum: 
4 7 
"Antes de amar, eu dizia: (4) 
4 7 
para cortar na raiz (4) 
4 7 
esta constante agonia (4) 
* Jos Oiticica, Manual de estilo, 3a cd., Rio, 1936, pg. 74 
** A combinao dos acentos internos soma at sessenta e quatro (64) variedades. 
529 
1 
4 7 
preciso amar algum dia (4) 
2 5 7 
amando, serei feliz. (2 e 5) 
2 57 
Amei... desventura minha! (2 e 5) 
3 7 
Quis curar-me e piorei; (3) 
2 4 7 
o amor s mgoas continha (2 e 4) 
4 7 
e, aos tormentos que j tinha, (3) 
4 7 
novos tormentos juntei!" (4') 
(MENOTTI DEL PIccHIA) 
Outras possibilidades: 
2 4 7 
"Que amor, que sonhos, que flores..." (2 e 4) 
(CASIMIRO DE ABREU) 
2 7 
"Debaixo dos laranjais!" (2) 
(CAsIMIRo DE ABREU) 
VERSO DE OITO SLABAS 
H vrios tipos de octosslabo. O mais harmonioso, com pausa principal na 4 slaba,  freqentssimo. Outros ritmos: 2 e 5'; 3 e 6 
3 e 5 a; somente na 3 '. 
Exemplos: 
4 8 
"No ar sossegado, um sino canta..." (4) 
4 8 
"Um sino canta no ar sombrio." (4) 
(OLAvo BILAC) 
2 5 8 
"Debaixo de um bosque de flores..." (2 e 5) 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
530 
3 6 8 
"Tem do cu a serena cor..." (3 e 6) 
(MACHADO DE Assis) 
3 5 8 
"O escarninho mundo perverso..." (3 e 5) 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
3 8 
"E o perfi4me da virgindade..." (3) 
(ALPHONSUS DE GUIMARAENS) 
VERSO DE NOVE SLABAS 
Este verso possui dois ritmos. O primeiro, formado de trs trissflabos, tanto vale dizer com acento na 3a e 6 o outro, menos cadenciado, se compe de dois tetrassflabos, 
sendo o primeiro sempre grave. 
3 6 9 
"O guerreiros da taba sagrada, 
- 3 6 9 
O guerreiros da tribo tupi! 
3 6 9 
Falam deuses nos cantos do piaga! 
3 6 9 
O guerreiros, meus cantos ouvi!" 
(GONALVES DIAS) 
4 9 
"Meu verso  sangue. Volpia ardente... 
4 9 
Tristeza esparsa... remorso vo... 
4 9 
Di-me nas veias. Amargo e quente, 
4 9 
Cai, gota a gota, do corao." 
(MANUEL BANDEIRA) 
VERSO DE DEZ SLABAS 
Os decassulabos se encontram, principalmente, nas epopias e no 
soneto clssico. 
531 
fl{ 
r4r 
Existem trs tipos usuais: 
) Herico, com acentuao principal na 6a slaba; 
2) Sfico, com acentuao principal na 4 e 8 slabas; 
3) Imperfeito, com acentuao principal na 4 slaba e acentua secundria (subtnica) na 8. 
Estes trs podem combinar-se (e  de esplndidos efeitos a comb 
nao), como no seguinte soneto de Hermes Fontes: 
6 10 
"Tambm a mim, Senhor, como a Aladino, (her 
4 10 
coube uma lmpada, a maravilhosa (imp 
6 10 
lmpada, a cuja luz de opala e rosa (her 
4 10 
sonhei milagres para o meu destino. (imp 
6 10 
E tirei da imprecisa nebulosa (her 
6 10 
o meu pequeno mundo levantino; (her. 
6 10 
e da minha esperana de menino (her. 
6 10 
fiz minha adolescncia generosa! (her. 
4 8 10 
Cada um de ns faz sua prpria lenda... (sf, 
4 8 10 
E mais aperta o corao no peito, (sf, 
6 10 
Porque a lmpada mgica se acenda. (her. 
6 10 
Mas alma! - cerra os olhos  lufada: (her. 
6 10 
Tudo o que  misterioso  mais perfeito... (her. 
6 10 
Conserva a tua lmpada velada..." (her. 
Como se v, predominam a os versos hericos: para dez deles, h dois sficos e dois imperfeitos. A disciplina clssica impunha a iden tidade de ritmos na estrofe, 
mormente no soneto, e desconhecia o de cassflaho imperfeito. 
532 
Libertaram-se depois os poetas dessa exigncia, com imensa vantagem para a harmonia total da obra. 
Entre ns, muitos poetas no conseguiram fugir  fascinao do decassflaho imperfeito: 
"E h um rasgar de sudrios pela altura, 
passos de espectros pelo pavimento..." 
"Amavios, feitios e carinhos 
.4 10 
moles, quebrados e perturbadores..." 
"Era um domingo da Ressurreio..." 
"No creias nunca na felicidade!" 
(BILAc) 
(BILAc) 
(RAIMUNDO CORREIA) 
(OLEGRIO MARIANO) 
Quem se dispusesse a rastrear pacientemente a mtrica de Os Lusadas, amealharia numerosos exemplos de decassflahos com ritmos diversos desses que apontamos. Cames 
usou, em no poucos lugares, decassflabos acentuados na 3 e 8, e na 4 e 7 sflahas: 
"Sacras aras e sacerdote santo." 
"Se serve inda dos animosos braos." 
"O louvor grande, o rumor excelente." 
4 7 
"De vossos remos sert certamente..." 
Este ltimo tipo, com acentuao na 4 e 7 sflahas, tambm chamado decasslabo de gaita galega, tem longa tradio na poesia italiana e espanhola e foi retomado, 
em portugus, por poetas contemporneos. 
Eis trs exemplos: 
4 
10 
4 
10 
4 
10 
3 
8 
3 
8 
4 
7 
(II, 15) 
(X, 31) 
(IX, 46) 
(VII, 62) 
533 
4 7 
"Oh! languidez, languidez infinita..." 
(CRUZ E SousA) 
4 7 
"J vai florir o pomar das macieiras..." 
(CAMILO PESSANHA) 
4 7 
"A vida  v como a sombra que passa." 
(MANUEL BANDEIRA) 
"Esses decassflabos de acentuao ambgua so rarssimos em nossos melhores parnasianos. No me lembro de os ter encontrado jamais 
em Bilac, Raimundo Correia e Vicente de Carvalho. 
Em Alberto de Oliveira, anotou o prof. Sousa da Silveira um exemplo: 
"A lavar tambm, como gigantescos..." 
('Flor do rio', Poesias, 3 srie, Rio de Janeiro, 
Francisco Alves, 1928, p. 75). 
Entre os modernos poetas, Martins Fontes comps os 'Decassilabos franceses' (Poesias, ed. do Bazar Americano, Santos, 1928, p. 377), todos com acentuao na quinta 
e na oitava slabas, e Guilherme de Almeida, no seu livro Voc, tem um poema intitulado 'Soneto sem nada', em decassflahos que todos so pausados na quarta e na 
stima slabas. "* 
VERSO DE ONZE SLABAS 
Resulta da justaposio de dois versos de cinco slabas, o primeiro 
dos quais deve ser grave. Ambos podem ter acentuao na 2, ou na 
3 slaba. 
2 5 8 
"Acerva-se a lenha da vasta fogueira, 
2 5 8 
entesa-se a corda da embira ligeira, 
2 5 8 
adorna-se a maa com penas gentis..." 
(GONALVES DIAS) 
* Manuel Bandeira, Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana, Rio de Janeiro, Ministrio da Educao e Sade, 1938, pp. 263-4. 
534 
3 5 3 5 
"Ai h quantos anos que eu parti chorando 
3 5 3 5 
deste meu saudoso, carinhoso lar..." 
(GUERRA JUNQUEIRO) 
Mais recentemente, o harmonioso Hermes Fontes tentou novo ritmo 
mais agradvel, com pausa na 3a e 7 slabas: 
3 7 11 
"Alvas ptalas do ltrio de tua alma..." 
3 7 11 
"Astros, nuvens, madrugadas, aves, flores..." 
VERSO DE DOZE SLABAS 
Este verso, tambm chamado alexandrino, * deve o nome, provavelmente, ao poema medieval 'Li romans d'Alixandre', do trovador 
Alexandre de Bernay e outros. 
E composto de dois versos de seis slabas, com o primeiro agudo 
ou grave. Cada um desses hexassflabos se chama hemist(quio (metade 
de verso). Da ser sempre acentuada a sexta slaba do alexandrino. 
Na potica clssica, havia, alm dessa cesura fnica, a exigncia 
de uma como cesura psicolgica,** isto , cada hemistquio deveria 
constituir uma unidade de sentido: 
"Que toujours dans vos vers, le sens coupant les mots 
suspende l'hmistiche, j en marque le repos." 
(B0ILEAu, L 'art potique) 
Os romnticos romperam com este preceito, fazendo que o sentido 
de um hemistquio continue no outro, e at realizando o enjambement, 
ou seja, o prosseguimento de um verso no verso seguinte. 
Quando o primeiro hemistquio for agudo, faz-se naturalmente a 
justaposio do segundo: 
* Advirta-se que estamos a falar do alexandrino francs (de doze slabas); pois que existe tambm o alexandrjno espanhol (ae treze sflabas), cultivado esporadicamente 
em nossa lngua. 
** Auguste Dorchain, L'art des vers, Paris [s.d.], p. 217. 
535 
6 12 
"O azul se abisma em luz 1 . . .o verde em luz se abisma... 
(Lus CARLOS) 
6 12 
"Subiro at Deus, nas asas da orao." 
(ALBERTO DE OLIvEIRA) 
6 12 
"Reboavas ao tropel 1 dos ndios e das feras!" 
(OLAvo BILAc) 
Sendo,porm, grave o primeiro hemistquio (no pode nunca ser esdrxulo), a ltima slaba dever terminar em vogal; e esta se ir fundir (embebimento) com a primeira 
slaba do segundo hemistquio, tambm obrigatoriamente comeado por vogal: 
6 12 
"Latescente, a nebli na oplica flutua..." 
(GUERRA JUNQUEIRO) 
6 12 
"Bebo-te, de uma em u ma, as lgrimas do rosto!" 
(OLAVO BILAC) 
6 12 
"Choro no ter colhi 1 do o beijo que perdeste..." 
(MENOTTI DEL PICCHIA) 
Este tipo de dodecassflabo dividido em duas partes tem o nome de alexandrino clssico. 
Para evitar a rijeza dos hemistquios, criou-se modernamente outro tipo: o alexandrino romntico, posto em voga pelos romnticos franceses. Suprimida a diviso em 
dois hexassflabos, grupam-se trs versos de quatro slabas, havendo, portanto, acentuao na 4 e 8. 
4 8 12 
"Na encruzilhal da silencioj sa do desti(no)..." (OLEGRIO MARIANO) 
4 8 12 
"Ouvindo a fala comovida do meu pai..." 
(OLEGRIO MARIANO) 
536 
4 8 12 
"Leitos de fadas, em guirlandas lumino(sas)..." 
(RAUL DE LE0NI) 
4 8 12 
"Quieta e dormente, como as guas estagna(das)..." 
(MEN0TrI DEL PIccHIA) 
O alexandrino  um verso muito rico; permite vrias pausas secundrias, o que lhe opulenta a variedade de ritmos: 
a) Dissilbico: 
2 4 6 8 10 12 
"Em cinza, em crepe, emfimo, em sonho, em noite, em nada." 
(OLAvo BILAc) 
b) Trissilbico: 
3 6 9 12 
"E loucura este amor? Foi-o desde comeo..." 
(VICENTE DE CARVALHO) 
c) Tetras silbico: 
4 8 12 
"Mais numerosa, mais audaz, de dia em dia..." 
(OLAvo BILAc) 
d) Misto: 
1 3 6 4 6 
"Fmeas faixas no cu, 1 como pendes de guerra..." 
(ALBERTO DE OLIVEIRA) 
2 6 3 6 
"Possu(da da expresso 1 de um silncio sem fim." 
(OLEGRIO MARIANO) 
VERSOS BRBAROS 
Raramente aparecem versos com mais de 12 slabas, os chamados 
brbaros. 
Eis alguns: 
"Amor aos dezenove, saudade aos quarenta anos." (13) 
(FRANCISCO O'rAvIANo) 
537 
"Abre uma orqudea gloriosamente sorrindo ao sol..." (14) (ALBERTO DE OLIvEIR4) 
"Quando as estrelas surgem na terra, surge a esperana." (14) 
(OLAvo BJLAC) 
"Durmam velhinhas! durmam crianas! durmam donzelas! 
Quando acordarem, j tm os anjos  espera delas..." (14) 
(GUERRA JUNQUEIRO) 
RIMA 
1) Rima  a identidade, ou semelhana, de sons dentro de um verso, ou no final de um verso em relao a outro. Admite-se tenha sido introduzida no sculo IX, pelo 
poeta religioso Otfried, monge beneditino da abadia de Wissenburgo, na baixa Alscia, autor do Livro dos Evangelhos, poema da vida de Cristo. Vulgarizaram-na na 
Espanha os rabes, e, mais tarde, pelos trovadores provenais foi adaptada s lnguas romnicas. 
2) Classificam-se as rimas em: 
( toantes 
a) consoantes 
L aliteradas 
b  masculinas 
femininas 
(uicas 
c) J pobres 
raras 
preciosas 
(Emparelhadas 
alternadas 
d Jcruzadas 
' encadeadas 
iteradas 
iniisturadas 
Por pertencer a uma rica famflia de fenmenos rtmicos, tais como 
a anfora, a assonncia, a aliterao, as pausas, os acentos, a reiterao 
538 
de vocbulos em lugares fixos ou no, etc. - a rima "no  adereo do poema, engaste que se queira mais acabado ou mais raro, antes desempenha uma funo esttica 
e tem um valor expressivo, harmoniza-se no todo potico e converge, com outros elementos da composio, para um fim nico, o significante potico".* 
TOANTES, CONSOANTES E ALITERADAS 
As toantes apresentam identidade somente nas vogais tnicas: lcido e dilculo, rvore e plido, boca e boa. 
"Molha em teu pranto de aurora as minhas mos pdlidas, Molha-as. Assim eu as quero levar  boca, 
em esprito de humildade, como um clice 
de penitncia em que a minha alma se faz boa..." (MANUEL BANDEIRA) 
As consoantes guardam conformidade total de fonemas, a partir da 
vogal tnica: destino, pequenino, sino; vejo, desejo, etc. 
"O homem desperta e sai, cada alvorada, 
para o acaso das coisas... E,  sada, 
leva uma crena vaga, indefinida, 
de achar o Ideal nalguma encruzilhada..." (RAUL DE LE0NI) 
As aliteradas - raras na moderna poesia portuguesa - so as que 
tm a mesma consoante inicial. 
Foi a forma rudimentar da rima, freqente na tradio popular, nos 
provrbios. 
Na segunda estrofe da 'Cano do exlio', Gonalves Dias rimou 
primores com palmeiras, rima aliterada, a par de morra com primores, rima toante, e de l com c e sabi, rima consoante. 
"No permita Deus que eu morra 
sem que eu volte para l; 
sem que desfrute os primores 
que no encontro por c; 
sem qu'inda aviste as palmeiras 
onde canta o sabi." 
* Hlcio Marfins, A rima na poesia de Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1968, p. 26. 
539 
Duas espcies de rimas h que s excepcionalmente foram cultivadas entre ns: a de sflabas tonas finais, e a de final de palavra esdrxula com a tnica de palavra 
aguda - ambas freqentes em poetas ingleses e alemes. 
As toantes, ainda hoje muito usadas em espanhol, formam, com as 
aliteradas, a base da metrificao dos antigos povos escandinavos, godos, etc. 
Em nossos dias, Manuel Bandeira fez algumas tentativas de rimar 
sflaba tnica com tona. 
Quanto s rimas imperfeitas do tipo - vejo com beijo - ouamos 
a Manuel Bandeira: * 
"Arpejos, beijos; beijo, pejo; vejo, beijo; louca, boca; caoula, rola; repouso, gozo; frouxo, roxo; pouco, oco; tesouro, coro; fecha, deixa; douda, toda." 
Todas essas rimas obedecem  pronncia usual brasileira; algumas mesmo (aquelas em que entra o ditongo ou)  pronncia normal portuguesa. Todavia, os nossos parnasianos 
mais rigorosos procuraram evit-las. Creio que lhes soavam como uma licena ou desleixo fontico, coisas que no admitiam. A nica, talvez, largamente empregada, 
foi a de beijo com desejo, vejo, etc., encontradia at em Bilac. O que os mestres mais apurados nunca fizeram foi rimar ais, is, is, uis com s, s, s, us, como 
era comum entre os romnticos. As excees que conheo so as de Alberto de Oliveira em relao  ltima rima uis, us (azuis, luz), por mim assinaladas na minha 
Antologia dos poetas brasileiros da fase romntica, p. 30, e  primeira ais, az no soneto 'Saudade da esttua' (Poesias, l srie, 1912, p. 99), onde 'traz' rima 
com 'mais'. No entanto, todos os parnasianos rimaram abundantemente vogais abertas com vogais fechadas: aposto, rosto; melhores, flores; bela, estrela; rimas quase 
s para os olhos." 
Com razo estranha Manuel Bandeira essas rimas s para os olhos. Ao contrrio, a rima  's para o ouvido'; e desta verdade aduz copiosa prova o padre Alrio Gomes 
de Meio (A rima em alguns poetas, Coimbra, 1942, pp. 4-8); defendendo a rima taire e terre, figurante no clebre Soneto de Arvers e censurada pelo visconde de Taunay, 
o pesquisador e religioso portugus carreia convincente exemplificao colhida em poetas como Vitor Hugo, Lamartine, Vigny, Musset, Bain Manuel Bandeira, ob. cit., 
p. 270. 
540 
ville, Verlaine, BaudeIaire, Coppe - toda a florao dos grandes mestres franceses. De sul e Liverpool usou Cesrio Verde; ouvir e Shakespeare se encontram em Antnio 
Nobre; Guerra Junqueiro e Gonalves Crespo perfilharam humilde com Rotschild; e rei Lear com rir foi agasalhada por Antnio Feij. 
Augusto dos Anjos, rimando apodrece com s, quase desconcertaria 
a quem apenas o lesse: 
" uma trgica festa emocionante! 
A bacteriologia inventariante 
Toma conta do corpo que apodrece... 
E at os membros da famflia engulham, 
Vendo as larvas malignas que se embrulham 
No cadver malso, fazendo um s." 
MASCULINAS E FEMININAS 
So masculinas as rimas de palavras oxtonas; femininas* as rimas de palavras paroxftonas. No h denominao especial para o caso dos esdrxulos porque essa nomenclatura 
 francesa e, como se sabe, o francs no possui palavras proparoxtonas. Em francs, , alis, de rigor a alternncia das rimas masculinas e femininas. Muitos poetas 
portugueses e brasileiros se tm cingido a esse preceito em algumas obras, como Toms Ribeiro, em 'A judia'; Machado de Assis, em 'A mosca azul'; Olavo Bilac, em 
'Baladas romnticas', etc. 
POBRES, RICAS, RARAS, PRECIOSAS 
Consideram-se pobres as rimas de palavras da mesma classe gramatical, ou as de palavras corriqueiras. Por exemplo, as que se fazem com advrbios em mente: docemente, 
tristemente, pobremente; com as terminaes co (cora ao, innao.), eza (tristeza, natureza, beleza), or, dor (amor, sonhador), ando (dilatando, devastando), ado 
(criado, celebrado), etc. 
So ricas as formadas com palavras de cIasss gramaticais diversas, 
ou, principalmente, as que surpreendem pela novidade: trai e Xangai; 
* So denominaes da potica medieva, de origem provenal. Os trovadores galaico-portugueses no conheceram a rima esdrixula. 
541 
fibra e vibra; esgote e sacerdote; brilha e maravilha; assumes e vaga-lumes; dele e aquele; saudade e nade. 
Diz-se que uma rima  rara, quando obtida entre palavras para as quais s haja poucas rimas possveis. Exemplos: para cisne s h tisne; para estirpe, s a forma 
verbal extirpe; para flrido, s rrido; para turco, h murco, furco, urco e algumas formas verbais como bifurco, conspurco. 
Eis um exemplo de tisne com cisne, e outro de urcos com turcos: 
"Um dia, um cisne morrer, por certo: 
quando chegar esse momento incerto, 
no lago, onde talvez a gua se tisne, 
que o cisne vivo, cheio de saudade, 
nunca mais cante, nem sozinho nade, 
nem nade nunca ao lado de outro cisne!" (Juuo SALUSSE) 
"Orna-lhe fulva pedraria o manto 
rgio; tiram-lhe o plaustro resplendente 
ndias parelhas de possantes urcos... 
Prostra-se o povo... Passa Al? Nem tanto: 
passa um sulto, apenas, simplesmente 
o imperador dos turcos!" (RAIMUNDO CORREIA 
Preciosas so as rimas artificiais, forjadas com palavras combinadas, tais como mmia com resume-a; rstias com veste-as; escrnk com descarne-o; vence-a com sonolncia; 
lagarta com amar-tu. pntanos com quebranta-nos; guia com alague-a, etc. 
No seu Dicionrio de rimas (2 ed., Rio de Janeiro, Francisco Al 
ves, 1913), o poeta Guimares Passos cita curioso exemplo, de ps 
simo gosto: 
"Mandou-me o senhor vigrio 
que lhe comprasse uma lmpada 
para alumiar a estampa da 
Senhora do Rosrio." 
Eugnio de Castro, de polirritmia estonteante, criou, em sua fas de iniciao, rimas opulentssimas, algumas das quais suprimiu na mai recente edio de 'Oaristos'. 
Entre as abandonadas, por extravagan tes, figura esta: l(rios e delir e os..., que, na realidade,  por demai extravagante. 
542 
Tambm ao exigente Hermes Fontes no repugnavam - antes fazia ele estandarte-de-glria desse luxo verbal - peregrinismos como este: 
"Cultuo a Dor... a Dor, cujo reverso  o gozo, 
 o prazer,  a volpia,  o mundo dos espasmos... 
O herosmo, a glria e o que h de mais maravilhoso, 
- O Dor dos imortais, Dor que me orgulhas, - ds-mos." 
EMPARELHADAS, ALTERNADAS, CRUZADAS, 
ENCADEADAS, ITERADAS, MISTURADAS 
Emparelhadas so as rimas de dois versos seguidos: 
(aa; bb; cc; etc...) 
"- Dize, Juca Mulato, o mal que te tortura. 
- Roque, eu mesmo no sei se este meu mal tem cura. 
- Sei rezas com que veno a qualquer mau olhado, breves para deixar todo o corpo fechado. 
Mas... de onde vem o mal que tanto te abateu? 
- Ele vem de um olhar que nunca ser meu... 
Como est para o sol a luz morta da estrela, 
a luz do prprio sol est para o olhar dela... 
- Juca Mulato! Esquece o olhar inatingvel! 
No h cura, ai de ti! para o amor impossvel; 
Arranco a lepra ao corpo; extirpo da alma o tdio; 
S para o mal de amor nunca encontrei remdio..." 
(MENOTTI DEL PIccHIA) 
So alternadas as figurantes em versos no-consecutivos, o 1? com 
o3?, o5?, etc. e 02? como 4? e 06?, e assim por diante: (ahahab, etc.). 
"Somos dois. Cada qual mais triste e mais calado. 
Anda l fora o luar garoando no jardim... 
Tenho pena da sombra imvel a meu lado, 
possuda da expresso de um silncio sem fim. 
E recordo, em voz alta, o meu tempo passado, 
e a sombra chega mais para perto de mim." 
(OLEGRIO MARIANO) 
As cruzadas se intercalam, em parelhas, num grupo de quatro versos (abba): 
543 
"Aqui outrora retumbaram hinos; 
muito coche real nestas caladas 
e nestas praas, hoje abandonadas, 
rodou por entre os ouropis mais finos..." (RAIMUNDO CORREIA) 
So encadeadas, quando a ltima palavra de um verso rima com 
outra no meio do verso seguinte: 
"Voai, zflros mimosos, 
1 2 
vagarosos, com cautela: 
2 3 
Glaura bela esta dormindo... 
3 
Quanto  lindo o meu amor!" (SILVA ALVARENGA) 
Nestes versos de Drummond, encadeiam-se rimas totais, em parelhas: 
"s vezes o encontro 
num encontro de nuvem. 
Apia em meu ombro 
seu ombro nenhum." 
Iteradas so as que se repetem no mesmo verso: 
1 1 2 2 
"Donzela bela, que me inspira  lira 
3 3 
um canto santo de fremente amor, 
4 4 5 5 
ao bardo o cardo da tremenda senda 
6 6 
estanca, arranca-lhe a terrvel dor!" (CASTRO ALvEs) 
A repetio de sons pode ocorrer em todas as palavras do verso (ou 
quase todas), como neste justamente famoso verso de Eugnio de Castro: 
"Na messe que enloirece, estremece a quermesse..." 
s vezes, ao poeta agrada dispor as rimas sem critrio fixo. Estas 
chamam-se misturadas, como no exemplo seguinte: 
544 
"Antes pela existncia andar  tuna: 
sono, viola e fumo, e ao Deus-dar... 
O que passou, j l se foi - que importa? 
E o que h de vir, por sua vez vir! 
Para a dor do viver que nos devasta 
e que beijo nenhum de amor consola, 
os ciganos fizeram-me sentir 
que, das trs cousas, uma s nos basta: 
- Tocar viola, 
fumar cachimbo, ou donnir." (RAIMUNDO CORREIA) 
Nesses versos, rimam: Deus-dar e vir (rima consoante); importa 
e consola (rima toante); devasta e basta, sentir e dormir, consola e 
viola (rima consoante). 
VERSOS MONORRIMOS 
Raros so os exemplos modernos dos artificiosos versos monorrimos, aqueles em que, em toda a estrofe, a rima no varia: 
SALRIO 
" que lance extraordinrio: 
aumentou o meu salrio 
e o custo de vida, vrio, 
muito acima do ordinrio, 
por milagre monetrio 
deu um salto planetrio. 
No entendo o noticirio. 
Sou um simples operrio, 
escravo de ponto e horrio, 
sou caxias voluntrio 
de rendimento precrio, 
nvel de vida sumrio, 
para no dizer primrio, 
e cerzido vesturio. 
No sou nada perdulrio, 
muito menos salafrrio, 
 limpo meu pronturio, 
jamais avancei no Errio, 
no festejo aniversrio 
  
r. 
545 
e em meu sufoco dirio 
de emudecido canrio, 
navegante solitrio, 
sob o peso tributrio, 
me falta vocabulrio 
para um triste comentrio. 
Mas que lance extraordinrio: 
com o aumento de salrio, 
aumentou o meu calvrio!" 
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE) 
"Exceto para efeitos cmicos, so montonos" - observa Antenor 
Nascentes, em suas Noes de estilstica e literatura (Rio de Janeiro, 
1929). 
Encontramo-los, por vezes, nos trovadores medievais: 
"Tan comprida de todo ben, 
per boa f, esto sei hen, 
se Nostro Senhor me d ben 
d'ela, que eu quero gran hen, 
per boa f, non por meu ben, 
ca, pero que Ih'eu quero hen, 
non sabe ca lhe quero ben." (PERO GARCIA BuRGALs) 
O ENJAMBEMENT, OU CAVALGAMENTO 
"Ii y a enjambemeni toutes les fois que le sens, commenc dans 
un vers, se termine dans une partie du vers suivant: 
'Au-dessus de sa tte un clairon de victoire 
S 'alionge, et sa lgende achve son histoire.' 
(VICTOR HUGO, 'L'anne terrible') 
La partie de la phrase, ou du membre de phrase, qui empite sur 
le second vers est dit le rejet. " 
Depois de muito usado pelos poetas do sculo XVI na Frana, foi 
o enjambement rigorosamente proscrito no sculo XVII. "Enfim Malherhe vint..." - escreveu Boileau - 
"Et le vers sur le vers ii 'osa plus enjamber", 
* Auguste Dorchain, ob. cit., p. 254. 
546 
e durante dois sculos esta lei se tornou, pelo menos teoricamente, uma das pedras-angulares da potica francesa. 
Com sobriedade e equilbrio, valeram-se desse recurso nossos clssicos mais autorizados. Garcia de Resende, S de Miranda e Antnio Ferreira talvez se excederam 
at em seu emprego, e, em Os Lusadas, h passos como este: 
"J pelo espesso ar os estridentes 
Farpes, setas e vrios tiros voam: 
Debaixo dos ps duros dos ardentes 
Cavalos treme a terra, os vales soam. 
Espedaam-se as lanas, e as freqentes 
Quedas co'as duras armas tudo atroam. 
Recrescem os imigos sobre a pouca 
Gente do fero Nuno, que os apouca." (IV, 31) 
Mas entre parnasianos  que aparece o enjambement como elemento estilstico expressivamente explorvel. Parece-nos fora de dvida o efeito artstico adrede buscado 
por Bilac no soneto 'Ptria', onde a quebra do verso inicial como que refora e aviva, sugerindo plenitude e rapidez, a prpria significao do verbo circular: 
"Ptria, latejo em ti, no teu lenho, por onde 
Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!" 
A SINAFIA E A ANACRUSA 
Caso extremo de bizantinice mtrica  a sinafia, fenmeno que se d quando dois versos esto de tal modo interpenetrados, que uma palavra comea num deles e acaba 
no outro. Poder-se-ia considerar como o exagero delirante do prprio enjambement. 
Esta rima por fragmentao vocabular vem dos primeiros tempos 
do idioma, de Sua Majestade el-rei dom Dinis, nos versos famosos 
que todos conhecemos: 
"Ca viv'en tal cuidado, 
come quen sofredor 
 de mal aficado 
que non pode maior, 
se mi non vai a que en forte 
ponto vi, ca ja da mort 
'ei prazer e nenhum pavor." 
547 
E, se recuarmos no tempo, iremos encontr-la no latim de Horcio "Labitur ripa love non probante uxorius 
amnis." 
Exemplos de poetas portugueses e brasileiros de vrias fases: 
"V com ardDr 
Teu belo corpo 
escultural..." 
"So nuvens de oxignio 
Teus vestidos? So de vidro? 
Ou so vapores de hidrognio?" 
" rei, no teu doirado reino, 
onde s tu mesmo a lei..." 
A anacrusa, palavra tirada  linguagem da msica,  uma slaba 
excedente, anteposta  slaba inicial de um verso, a qual no se leva 
em conta na escanso desse verso: 
"Meu Deus, 
eras bela 
donzela 
valsando..." 
Sendo este poema, 'A valsa', composto em versos de duas slabas, aquele e de eras bela h de ser desprezado, sob pena de romper-se o isossilabismo - pois que, em 
caso contrrio, ficaria o aludido verso com trs slabas. 
VERSOS BRANCOS OU SOLTOS 
Versos que no rimam chamam-se brancos ou soltos. Posto que a 
rima seja, a par do ritmo, elemento natural da forma potica, numerosos poemas h, musicalssimos, que a tm dispensado. 
Olavo Bilac, no tratado de versificao escrito de mo comum com 
Guimares Passos, exprobrou a ausncia da rima: "...em composio 
alguma de versos se deve prescindir da rima. Ela  indispensvel." 
1 
(ANTNIO FEIJ 
(MARTINS FONTES; 
(CASSIANO RICARDO; 
(CASIMIRO DE ABREU) 
548 
"No se lembrou, talvez, de que em 'Satnia' compusera" - como j frisou Manuel Bandeira - "cento e nove melodiosssimos e harmoniosssimos versos brancos." 
Na literatura brasileira enxameiam belas peas em versos soltos: 
'Uraguai', de Basilio da Gama; 'Anchieta' e 'Cntico do Calvrio', de Fagundes Varela; 'Palavras ao mar', de Vicente de Carvalho, e muitas outras. 
VERSO LIVRE 
1) Assim se chama o verso que no tem medida padronizada. 
Nele, no h o ritmo 'matemtico' que estamos habituados a sentir, proveniente da diviso regular das slabas em grupos mtricos com pausas determinadas. H, no 
entanto, uma musicalidade particular 
baseada no jogo das entoaes e das pausas -, a qual reproduz o movimento interior da alma do poeta, regulando-se pela amplido da idia ou do sentimento -, ritmo 
subjetivo, nico e intransfervel. 
Eis uma observao interessante do crtico Srgio Milliet a respeito 
da potica dos modernistas brasileiros de 1922: 
"Em suma, para eles, o verso s tinha de livre o nome; na realidade criavam novas regras, mais difceis ainda do que as anteriores, porquanto exigiam do artista 
uma penetrao profunda na prpria essncia da poesia. No se tratava de abolir ritmos, msica, imagens, mas de encontrar o ritmo certo, a msica adequada e a imagem 
incisiva. A luta era contra a retrica e contra as fceis e falsas solues da metrificao tradicional, que j no correspondiam nem  lngua nem  sensibilidade 
de nossa poca. E o resultado da luta no foi a licena, como pensavam os reacionrios, nem a anarquia, como parecem acreditar alguns jovens de hoje, porm a possibilidade 
para cada um de criar suas prprias leis, as que melhor se ajustassem a seu temperamento e sua mensagem. " 
Eis um belo exemplo de poema em versos livres: 
"Era um grande pssaro. As asas estavam em cruz, abertas para os 
[cus. 
A morte, sbita, o teria precipitado nas areias molhadas. 
Estaria de viagem, em demanda de outros cus mais frios! 
* Srgio Milliet, Dirio crtico, 9 vois., So Paulo, Martms, 1944-57, vol. 2, pp. 96-7. 
549 
Era um grande pssaro, que a morte asperamente dominara. Era um grande e escuro pssaro, que o gelado e repentino vento su[focara. 
Chovia na hora em que o contemplei. 
Era alguma coisa de trgico, 
to escuro, e to misterioso, naquele ermo. 
Era alguma coisa de trgico. As asas, que os azuis queimaram, pareciam uma cruz aberta no mido areal. 
O grande bico ahrto guardava um grito perdido e terrvel." 
(AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, 
'Poema', em Estrela solitria.) 
Quem, por primeiro, libertou o ritmo do verso parece ter sido o americano Walt Whitman, que exerceu grande influncia sobre os simholistas franceses - os tericos 
da arte nova e seus grandes vulgarizadores. 
2) Do poema em versos livres distingue-se ( conveniente assinalar) o poema heteromtrico - em que se sucedem, com disposio arbitrria, versos tradicionais de 
medidas diferentes. 
Exemplo: 
CONSOADA 
Quando a Indesejada das gentes chegar (11) 
(No sei se dura ou carovel), (8) 
Talvez eu tenha medo. (6) 
Talvez sorria, ou diga: 
- Al, iniludvel! (12) 
O meu dia foi bom, pode a noite descer. (12) 
(A noite com os seus sortilgios.) (9) 
Encontrar lavrado o campo, a casa limpa, (12) 
A mesa posta, (4) 
Com cada coisa em seu lugar.(8) 
(MANUEL BANDEIRA) 
550 
. . 
A 
NDICE 
DE ALGUNS FATOS DE LINGUAGEM* 
a (com acento; sem acento). 380, 381, 382, 383, 384, 385 
a/h 349 
abdmen (seus plurais) 80 
aceito a 356 
acerbo 36 
 chave 382 
 fome 382 
acurativos (auxiliares) 414 
algoz, algozes (pronncia) 36 
ali 77 
ambos 108, 313 
 mesa, na mesa 358 
anacoluto 489 
anafrico (demonstrativo) 328 
ancio (seus plurais) 81 
aonde (e onde) 333, 334 
assistir-lhe, a ele 421, 422, 423 
(s) pressa(s) 382 
at/at a 365 
atravs de 370 
avs/avs 83 
B 
badejo (prornncia) 36 
bomia/boemia (subst.) 31 
bolsos (pronncia) 85 
cada 115, nota 
cartomancia (pronncia) 30 
casa (ir a casa) 382 
casar(-se) 425 
cateter 30, 31 
caudal (gnero) 76 
cerda (pronncia) 36 
cidado (plural) 81 
champanha (seu gnero) 76 
co-autor (e congneres) 58 
colorir (e cobrar) 169 
como pai/como a pai 247 
com ou sem recursos 366 
consigo 112, 319 
conosco e com ns... 318 
contra recibo 367 
cor (adjetivos de) 99, 100 
corvos (pronncia) 85 
coisa e cousa 50 
copo d'gua/com gua 366 
crase (acento de) 53, 314, 380 
D 
de h muito 349 
ditico (demonstrativo) 328 
dentro em 373 
diferencial (acentuao) 54 
dum (= de um) 182 
* Este fndice estava em elaborao pelo Autor. No se sabe se ele o considerava terminado. 
551 
- 
- 
E 
embaixatriz/embaixadora 78 
em mo 176 
em que pese a 167 
enquanto 284 
entoao 232 
entre mim e ti 338, 354 
 que 331, 407 
eu me parece 321 
G 
grama 76 
gratuito 30 
guarda-marinha 84 
II 
haja vista 344 
1 
ibero 30 
ileso 36 
interesse(s) 36 
J 
j/mais 349 jnior (plural) 80 
L 
labareda 36 lana-perfume 76 
M 
mais bemlmelhor 347 
mais bom 102 
mais grande 102 
maquinaria 30 
marani 78 
meio-dia e meia 314 
meio(s) nus 303 
mil (nmero indeterminado) 312 
misantropo 30 
modais (auxiliares) 413 
muita rosa (= muitas rosas) 292 
muita vez (= muitas vezes) 292 
N 
no partfcula de negao 177 
substantivo 290 
vicrio 119 
no obstante 277 
nenhum/nem um 335, 336 
Nobel 30 
nomes de pessoas (seu plural) 82 
ns (com valor de singular) 323 
noves (prova dos) 83 
nmeros (seu plural) 83 
o 
obeso (pronncia) 36 
obsoleto (pronncia) 36 
ocre (pronncia) 36 
culos 82 
omega e mega 30 
omoplata (gnero) 76 
onagro (pronncia) 30 
onde/aonde 333, 334 
os planos (os) mais elevados 298 
P 
pago (plural) 81 
para com 375 
para eu fazer 318 
peo (seus femininos) 75 
pegada (substantivo) 30 
perito (pronncia) 30 
personagem (gnero) 75 
- 
552 
pijama (gnero) 75 
pior (comparativo) 102, 347 
PORQUE (interrogativo) 350 
POR QUE 352 
pra 34 
projtil/projetil 81 
pronomes tonos (interposio em locues verbais) 455 
propositalmente 348 
Q 
quando 176, 283 
quanta vez (= quantas vezes) 291, 292 
QUE advrbio 174 
tono, tnico 33, 39 
comparativas 279, 280 
correlativa 280 
integr. 188, 265 
interrog. 117, 119, 334 
omitida, simples elo 264 
relativo 116, 117, 330, 331, 403 
QUEM 116, 117, 118, 265, 266, 269, 272, 332, 335, 403 
querer-lhe e quer-la 443, 444 
R 
rani 78 
rptil/reptil 81 
reduzir a 372 
rubrica 30 
s 
s/c (nascer, etc) 26, nota 4, 48 SE com funo de dativo 317 
ind. de indeterm. do suj. 391 
part. apassivadora 320 
reflexivo 320 
se + o (v-se-o, etc) 322 
sem que 276, 277, 278 
snior (plural) 80 
ser 120, 404, 405, 406 
seu dele 321, 326 
si 111, 319 
sim (vicrio) 119 
sogros 85 
soprano (gnero) 76 
surdo-mudo 97 
T 
telefone (falar pelo, ao) 364 
ter de, ter que 370 
todo o sempre 338 
todos os dois 338 
todo, todo o 337 
tratamento (mudana de) 488 
trocos 85 
tudo que, tudo o que 338 
tudo so () flores 404 
U 
ia 310 
uma (numeral),  uma 314 
ureter 30 
usucapiAo (seu gnero) 76 
v 
vicrias (palavras) 119 
vir e ver (derivados) 164, 166 
vs (uso deste tratamento) 389 
x 
xerox 30 
z 
zero (desinncia) 194 
553 
  : 
Yfs 
Este livro foi impresso nas oficinas da 
EDITORA GRFICA SERRANA LTDA. 
Rua General Rondon, 1.500- Petrpolis, Ri 
para a 
EDITORA Jos OLYMPIO LTDA. 
em abril de 2001 
* 
7O aniversrio desta Casa de livros, fundada em 29.11.1931 
Qualquer livro desta Editora no encontrado nas livrarias pode ser pedido, 
pelo reembolso postal,  EDITORA JOSE OLYMPIO LTDA. 
Rua da Glria, 344/4v andar 
2024 1-180 - Rio de Janeiro, RJ 
PABX: (Oxx2l) 509-6939 - Fax: (Oxx2l) 242-0802 
E-mail: joeditor@unisys.com.br 

Digitalizao realizada por:  Carlos Willians
